OFS São José dos Campos

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Formação · 16 de outubro de 2026

X Jornada Mundial dos Pobres: uma Igreja chamada à conversão e a ser refúgio dos pobres

Fr. José Francisco de Cássia dos Santos, OFM

Dez anos após a instituição do Dia Mundial dos Pobres, a mensagem de Leão XIV — “O Senhor é o refúgio do pobre” (Sl 14,6) — convida a Igreja à conversão e à proximidade com os pobres.

Cartaz oficial da X Jornada Mundial dos Pobres — “O Senhor é o refúgio do pobre” (Sl 14,6), de 08 a 15 de novembro de 2026 (CNBB).
Cartaz oficial da X Jornada Mundial dos Pobres — “O Senhor é o refúgio do pobre” (Sl 14,6), de 08 a 15 de novembro de 2026 (CNBB).

Ao concluir o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco, por meio da Carta Apostólica Misericordia et misera (2016), instituiu o Dia Mundial dos Pobres, reconhecendo que os pobres estão no coração do Evangelho e que não pode haver verdadeira justiça e paz social enquanto permanecerem à margem da sociedade e da comunidade cristã. A celebração convida a Igreja a transformar a misericórdia em proximidade, encontro, partilha e solidariedade, reconhecendo nos pobres a presença de Cristo. Assim, a atenção aos pobres não constitui uma ação paralela, mas expressão da própria missão evangelizadora da Igreja e caminho para a renovação de seu rosto.

Ao longo desses dez anos, a Igreja no Brasil, por meio da Jornada Mundial dos Pobres, tem percorrido um caminho no qual é continuamente chamada a reafirmar sua identidade de discípula e mensageira do Senhor, testemunhando a misericórdia, a fraternidade e a justiça do Reino de Deus. As mensagens de cada edição constituem um convite à conversão pessoal e comunitária, levando a Igreja a rever sua vida, suas práticas e suas formas de atuação. Nesse processo, é chamada a deixar-se evangelizar pelos pobres e a reconhecer que sua fidelidade ao Evangelho passa necessariamente pela proximidade, pela escuta e pelo compromisso com aqueles que vivem nas periferias da existência.

A Mensagem de Leão XIV para o X Jornada Mundial dos Pobres, em 2026, cujo tema é “O Senhor é o refúgio do pobre” (Sl 14,6), aprofunda essa caminhada. Partindo do Salmo, o Papa evidencia que a perda do sentido de Deus manifesta-se concretamente na injustiça, no abuso de poder, na opressão e na exclusão, realidades que atingem de modo particular os pobres. Em Cristo, porém, Deus se faz próximo e assume a condição humana até a cruz; por isso, Leão XIV afirma que a Igreja, “pela sua própria natureza, é chamada a ser pobre e refúgio para os pobres”. A afirmação amplia a compreensão da ação cristã: os pobres não são apenas destinatários da caridade, mas sujeitos da vida e da missão da Igreja, capazes de evangelizar a própria comunidade. Por isso, o Papa propõe um verdadeiro exame de consciência e convida a Igreja a ir ao encontro dos pobres, experimentar sua marginalização, escutar seus pensamentos, partilhar suas esperanças, pronunciar seus nomes com ternura e sustentar neles o desejo de justiça e redenção. A pobreza, assim, não aparece somente como uma realidade que interpela a caridade cristã, mas como um lugar teológico e evangelizador a partir do qual a própria Igreja é chamada a se renovar e a tornar visível o rosto de Deus como refúgio dos pobres.

“Pela sua própria natureza, [a Igreja] é chamada a ser pobre e refúgio para os pobres.”

Leão XIV, Mensagem para a X Jornada Mundial dos Pobres

Essa caminhada também permite reconhecer os sinais de contradição e de morte presentes em nossa sociedade, que ameaçam e desafiam o testemunho e a ação evangelizadora da Igreja. Entre eles está a economia que mata, quando transforma os bens essenciais à vida em produto e coloca o lucro acima da dignidade humana. Está também o individualismo e o fechamento diante das questões sociais, que enfraquecem o sentido de coletividade e do bem comum. Com isso, decisões que deveriam estar orientadas para o benefício de todos acabam, muitas vezes, determinadas por interesses e ambições pessoais ou de grupos, com consequências que recaem de modo mais duro sobre os pobres e vulneráveis. Soma-se a isso o egoísmo, que anestesia a sensibilidade diante da dor alheia, inviabiliza a solidariedade e fortalece a indiferença e a cultura do descarte. O consumismo, por sua vez, aprofunda as desigualdades, fortalece as injustiças e contribui para a destruição da Casa Comum. Também o uso das tecnologias pode potencializar conflitos, disseminar o ódio, promover guerras e favorecer processos de desumanização das relações. Diante dessas realidades, a Igreja não pode permanecer indiferente.

A conversão cristã possui, portanto, uma dimensão pessoal, social, comunitária e também estrutural. Não basta transformar os corações se permanecem inalteradas as relações, as práticas e os modos de organização que produzem exclusão e sofrimento. A proximidade com os pobres exige questionar os modos de vida que geram desigualdade, violência, descarte e destruição. Exige também construir novas formas de convivência, baseadas na fraternidade, na solidariedade e no cuidado com a Casa Comum. Assim, a Igreja poderá ser, no meio do mundo, sinal coerente do Evangelho que anuncia, espaço de acolhida, de fraternidade e testemunha de que outra forma de viver e de relacionar-se é possível. O Reino de Deus está entre nós!

Celebrar a X Jornada Mundial dos Pobres, em 2026, é, portanto, mais do que realizar uma atividade no calendário pastoral: é acolher o convite de Leão XIV para que nossas comunidades se deixem interpelar pela Palavra de Deus e reconheçam o Senhor como “refúgio do pobre”. Que cada comunidade faça desta Jornada uma oportunidade de encontro, escuta e proximidade com os pobres, não apenas como destinatários de sua ação, mas como irmãos que evangelizam e ajudam a reencontrar o essencial do Evangelho. Somos convidados a abrir nossas portas, nossas mesas, nossos espaços e, sobretudo, nossos corações, para que ninguém permaneça invisível ou excluído. Ao celebrarmos esta décima edição, permitamos que o clamor dos pobres renove nossa fé, questione nossas escolhas e inspire novas formas de solidariedade, fraternidade e cuidado com a Casa Comum, para que nossas comunidades sejam, cada vez mais, presença de Cristo e verdadeiro refúgio para os pobres.

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